A disputa pela Ilha Comprida, em Angra dos Reis, envolve o jogador Richarlison, o senador Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz. Em vídeo publicado em 21 de outubro de 2026, o atleta voltou a acusar os dois de participação no conflito.
O impasse começou em 2020, após negociações por direitos de ocupação de um imóvel na ilha. Como a área pertence à União, a controvérsia judicial trata da posse e da ocupação, não da propriedade da ilha.
Localizada na Costa Verde do Rio de Janeiro, a Ilha Comprida tem cerca de 4,5 quilômetros de extensão e reúne vegetação de Mata Atlântica, pequenas praias e uma cachoeira. Richarlison afirma que investiu no imóvel por meio de uma empresa da qual é sócio.

Os registros judiciais consultados pela reportagem indicam que o processo foi arquivado definitivamente em 23 de janeiro de 2026. A disputa também envolve versões diferentes sobre a negociação, documentos apresentados pelo jogador e pedidos de apuração de possíveis irregularidades.
Localização e características da Ilha Comprida
Na região dos manguezais da Baixada do Bracuí, a Ilha Comprida tem ligação com o continente. O acesso às pequenas praias do local depende da maré baixa.
Uma cachoeira privada também fica na ilha e foi mostrada por Richarlison em publicações nas redes sociais. O jogador mencionou o espaço ao apresentar imagens do imóvel envolvido na disputa.
As ilhas de Angra dos Reis atraem turistas brasileiros e estrangeiros. A região combina mar calmo e vegetação de Mata Atlântica, características associadas ao turismo de luxo no município.
Como começou a disputa pelos direitos de ocupação
Em 2020, Richarlison, o então empresário Renato Velasco e o político mineiro Alencar da Silveira Júnior negociaram direitos de ocupação do imóvel. O grupo ligado ao atacante afirma ter pago por esses direitos a antigos ocupantes da área.
Em julho de 2020, Flávio Bolsonaro visitou a mansão a convite do ex-senador Wilder Morais. Na ocasião, o imóvel era ocupado pelo empresário Antônio Marcos Pereira Silva, que negociava a transferência dos direitos possessórios ao grupo do jogador.
Antônio Marcos afirmou em entrevista que Willer Tomaz demonstrou interesse pela propriedade quando esteve na região com Flávio, em janeiro de 2021, e perguntou se a negociação poderia ser desfeita ou se os compradores aceitariam vendê-la. Tomaz apresentou outra versão: disse que já conhecia o imóvel antes desses episódios.
Richarlison sustenta que recusou uma proposta de compra e acusa Flávio e Tomaz de terem obtido os direitos de ocupação na Justiça após a negativa. Em vídeo publicado em 21 de outubro de 2026, afirmou que investiu cerca de R$ 10 milhões no imóvel e exibiu contratos de cessão de direitos possessórios e comprovantes de pagamentos; segundo o jogador, R$ 4,66 milhões foram destinados a antigos ocupantes, e o restante cobriu reformas e segurança.
Decisões judiciais e arquivamento do processo
Em 2022, a M Locadora de Veículos e Transportes Turísticos Ltda. ajuizou uma ação de reintegração de posse contra a Sport 70, ligada a Richarlison, a YTA Consultoria e Renato Rocha Velasco. A empresa reivindicava direitos sobre a área, enquanto o grupo do atleta defendia a validade da negociação com antigos ocupantes.
Maria Alice Menna, representante da M Locadora que tinha 78 anos na época, contestou documentos usados na negociação. Ela disse ter sido induzida a assinar papéis e alegou que sua assinatura havia sido falsificada, acusações questionadas durante a disputa.
O processo teve liminares e expedição de mandados em 2022, mas, em maio de 2023, o juiz Ivan Pereira Mirancos Junior extinguiu a ação principal sem analisar o mérito. A decisão ocorreu após divergência entre representantes da M Locadora: um dizia que a empresa ainda ocupava o imóvel; outro afirmava que ela não mantinha a posse desde 1990.
A sentença não definiu quem tinha direito à posse nem reconheceu fraude processual, e autorizou que prosseguisse a análise de um pedido da Sport 70 e de Renato Rocha Velasco contra a M Locadora. Em junho de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve entendimento favorável à empresa ligada a Tomaz; em outubro daquele ano, foi homologada uma renúncia apresentada pelo autor, e o processo acabou arquivado definitivamente em 23 de janeiro de 2026.
Pedido de investigação e versões dos envolvidos
Richarlison também cobra a apuração de possíveis irregularidades na regularização da área. Segundo a referência, o coletivo Derrubando Muros apresentou uma representação ao Ministério Público Federal (MPF) sobre o terreno, que pertence à União.
O jogador afirma que pretende continuar recorrendo à Justiça para tentar recuperar o imóvel ou os valores que investiu. Ele também disse que destinaria parte de uma eventual indenização ao hospital de Nova Venécia, sua cidade natal, e relatou ter procurado Flávio para conversar sobre o impasse, sem receber resposta.
Flávio Bolsonaro negou envolvimento em 2022 e declarou, naquela ocasião, que não era parte no processo, mas havia sido indicado como testemunha. Após as novas acusações de Richarlison, não comentou as declarações, segundo a reportagem.
Tomaz afirma que sua empresa adquiriu legalmente os direitos de ocupação e que o jogador negociou com posseiros que não seriam os legítimos proprietários. Em nota, contestou os valores apresentados por Richarlison: disse que o vídeo menciona R$ 4,66 milhões, enquanto a Sport 70 teria declarado nos autos desembolso de R$ 2,6 milhões; também alegou haver escritura registrada, certidão da Secretaria do Patrimônio da União e decisões favoráveis, inclusive no STJ. O advogado afirmou ainda que um inquérito policial foi arquivado por falta de indícios de crime e que Flávio figurou no processo apenas como testemunha arrolada por Alencar da Silveira Júnior.

