O pedido para ampliar a mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), foi apresentado por uma empresa ligada ao advogado Willer Tomaz com base em uma mudança nas regras ambientais. Documentos reunidos pela reportagem mostram que a solicitação foi protocolada no mesmo dia em que a norma estadual entrou em vigor.
O decreto foi publicado em 20 de março de 2026, durante o governo de Cláudio Castro, e flexibilizava regras da Área de Proteção Ambiental (APA) Tamoios. Em 14 de abril, o governador interino Ricardo Couto revogou a norma, e o processo deixou de avançar.
A propriedade é alvo de disputa judicial entre a empresa do jogador Richarlison e interesses ligados a Tomaz, após visita de Flávio Bolsonaro à ilha em 2021. As versões sobre a titularidade e a extensão do terreno divergem nos documentos apresentados à Justiça e ao governo fluminense.

O caso também foi incorporado pela Polícia Federal (PF) a uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e Tomaz. A atuação do advogado é alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou medidas contra ele e uma empresa offshore.
Decreto ambiental embasou projeto de ampliação da mansão
A WT Administração de Imóveis pediu ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) que a taxa de ocupação do terreno passasse de 15% para 30%. No requerimento, a empresa de Willer Tomaz citou o decreto estadual que flexibilizava as regras da área.
O projeto apresentado previa demolir a casa existente, de 410 metros quadrados, e construir outra com 726 metros quadrados. A proposta incluía academia e cais, em uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis.
Às 0h21 de 21 de março, o então presidente do Inea, Renato Jordão Bussiere, encaminhou o pedido da empresa. Bussiere também era investigado pela Polícia Federal em outro caso, por suspeita de favorecer a Refit na emissão de licenças ambientais.
Em nota, Cláudio Castro negou ter discutido o conteúdo do decreto com Willer ou pessoas ligadas à empresa. O ex-governador afirmou que a norma tinha caráter geral e técnico e atualizava a forma administrativa de aprovação das regras, sem reduzir limites ou retirar proteção ambiental.
Disputa judicial reúne Richarlison, Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro
A empresa de Richarlison, a Sport 70, apresentou um contrato de compra do terreno datado de 2020, registrado em cartório, no valor de R$ 2,6 milhões. As coordenadas indicadas nesse documento são as mesmas informadas pela empresa de Willer no pedido encaminhado ao governo fluminense.
Em maio de 2022, o juiz Ivan Pereira Mirancos Junior, da 2ª Vara Cível de Angra, acolheu um pedido para retirar o imóvel da Sport 70 e transferi-lo à M Locadora de Veículos, que havia adquirido o terreno em 1986. A empresa apresentou uma matrícula em que aparecia como última proprietária registrada e um alvará da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), exigido para propriedades costeiras.
A M Locadora negou ter vendido o terreno e acusou de fraude antigos ocupantes que negociaram o imóvel com Richarlison. O juiz voltou atrás na autorização de despejo após entender que a empresa havia omitido o interesse de vender a área a Willer; uma sócia afirmou à Justiça que sua assinatura foi falsificada no processo. Embora o advogado tenha obtido decisões favoráveis em outras instâncias e na SPU, o juiz manteve o embargo à transferência, que foi derrubado em janeiro.
Os documentos também divergem sobre a extensão da área: a matrícula usada por Willer indica 1,4 mil metros quadrados, o contrato da Sport 70 menciona 4,4 mil e o requerimento ao governo cita 42,9 mil. Richarlison afirmou em publicações que Flávio Bolsonaro e Willer se interessaram pelo local após uma visita do senador, em 2021, e que o advogado tentava adquiri-lo desde o fim daquele ano. Flávio negou envolvimento na compra e, em mensagens trocadas em 2026, pediu ao jogador uma nota que o isentasse, mas Richarlison recusou.
Investigação da PF apura relação entre advogado e senador
A Polícia Federal incorporou a disputa pelo imóvel ao inquérito sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e Willer. A investigação inclui indícios de que o senador teria usado uma conta bancária em nome da offshore Alcazar Holdings, ligada ao advogado.
A área é considerada terreno de Marinha, categoria que exige o pagamento de uma taxa anual de ocupação à União. Em 2024, Flávio relatou no Senado uma Proposta de Emenda à Constituição conhecida como PEC das Praias, que busca permitir a compra desses terrenos federais por pessoas físicas e empresas; a proposta está parada na Casa.
Em 23 de outubro de 2026, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio de R$ 6 bilhões em bens de Willer. A decisão também ordenou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do advogado e da Alcazar Holdings, além do cancelamento dos passaportes de Tomaz.


