Pedidos de obras em Angra apresentados por Willer Tomaz coincidiram, em 20 de março, com a publicação de um decreto de Cláudio Castro que revogou planos de manejo de áreas protegidas. Segundo a apuração, as solicitações foram feitas ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea).
A medida alcançou a Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios, criada há cerca de 40 anos para preservar ambientes da baía da Ilha Grande. Cerca de 20 dias depois, na gestão do desembargador Ricardo Couto, o decreto foi revogado após protestos de ambientalistas.
As solicitações envolviam a Ilha Comprida, onde fica a mansão reivindicada por Richarlison, e a Ilha José André. O jogador afirma ter comprado o imóvel em 2020, enquanto Tomaz contesta essa versão e diz ter documentos que comprovam a propriedade.
Os dois pedidos de ampliação não foram autorizados pelo Inea. Castro e Renato Bussiere são investigados pela Polícia Federal (PF) por suspeitas de favorecimento, e ambos negam irregularidades; a investigação não significa, por si só, que tenham cometido crimes.
Decreto e pedido de ampliação na Ilha Comprida
No requerimento ligado à Ilha Comprida, a empresa de Willer Tomaz pediu que a taxa de ocupação passasse de 15% para 30%. O projeto previa uma residência com mais de 700 metros quadrados em um terreno de 43 mil metros quadrados.
O pedido também incluía um cais e uma academia. Segundo os documentos citados na apuração, a solicitação mencionava o decreto estadual recém-publicado como parte da justificativa para ampliar a ocupação permitida.
O processo teve andamento em um despacho assinado depois da meia-noite por Renato Bussiere, então presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Bussiere afirmou que o encaminhamento servia para levar a demanda às unidades competentes e não significava aprovação do projeto.
Na avaliação de Bussiere, não houve decisão que autorizasse mudança de zoneamento, alteração dos índices de ocupação ou execução de obras na ilha. Ele também disse que despachos fora do horário comercial eram comuns no órgão.
Projeto de resort, proteção ambiental e investigação da PF
Na Ilha José André, Tomaz apresentou um projeto de resort que previa quartos, piscinas, beach club, spa, academia e restaurante. O plano também incluía área para eventos, hangar e heliponto.
A Ilha José André está dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios. Especialistas ouvidos pelo RJ2 alertaram que a revogação dos planos de manejo poderia abrir caminho para reduzir proteções ambientais em diferentes trechos do litoral fluminense.
A Polícia Federal apura suspeitas de uma estrutura de captura de órgãos públicos para atender interesses privados, incluindo possíveis práticas de tráfico de influência e favorecimento de aliados e empresários próximos. Cláudio Castro afirmou que não discutiu o decreto com Tomaz nem recebeu dele pedidos ligados à medida; disse também que o texto tinha caráter geral e técnico.
Bussiere declarou que o despacho de encaminhamento não representou concordância com o pedido. A proposta conhecida como PEC das Praias, apresentada em 2022 pelo senador Flávio Bolsonaro, também poderia afetar áreas da região: o texto previa mudanças na transferência de terrenos da União, inclusive áreas sob administração da Marinha, para ocupantes privados mediante pagamento, mas não avançou.
Disputa pela mansão e versões dos envolvidos
Richarlison afirma que comprou a mansão da Ilha Comprida em outubro de 2020 e investiu cerca de R$ 10 milhões na aquisição e na reforma. O imóvel fica ao lado de uma cachoeira que deságua no mar, segundo a apuração.
O jogador diz que indenizou antigos moradores e obteve uma decisão judicial que validou sua posse. Ele relata que procurou a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) para regularizar a situação, mas que o processo ficou parado por cerca de dez meses; nesse período, segundo sua versão, uma empresa com sócios falecidos foi reativada e o patrimônio transferido para uma empresa ligada a Tomaz.
Richarlison também afirma que o conflito começou após Flávio Bolsonaro visitar a ilha e tentar comprar a mansão. O atacante diz que recusou a proposta e acusa o senador e Tomaz, que são amigos, de terem se aliado para retirar seus direitos sobre o imóvel.
Tomaz contesta essa narrativa e afirma que Richarlison comprou o imóvel de alguém que apenas ocupava a área, sem ser seu proprietário formal. O advogado diz que a empresa titular da ilha desde 1986 não recebeu dinheiro do jogador e que ele adquiriu a propriedade diretamente dela, com escritura pública, registro em cartório e documentação em seu nome na SPU; a reportagem registra que Tomaz não se manifestaria sobre as acusações.


