A disputa pelos direitos de ocupação de uma propriedade na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) por meio de uma petição de deputados federais. O caso envolve o jogador Richarlison e a empresa WT Administração de Imóveis e Bens S/A.
Segundo a reportagem, Richarlison adquiriu os direitos de posse e ocupação em outubro de 2020, em parceria com Alencar da Silveira Júnior e Renato Velasco, por meio da empresa Sport 70 Intermediação de Negócios Ltda. A regularização da ocupação foi solicitada à Secretaria do Patrimônio da União (SPU) em 2021.
O impasse também envolve Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro, que negam irregularidades ou participação na aquisição, segundo as manifestações reproduzidas na reportagem. Em 21 de outubro de 2026, os deputados Rogério Correia e Pedro Uczai pediram ao ministro Alexandre de Moraes medidas relacionadas ao imóvel.

A petição questiona atos da SPU e solicita providências sobre a transferência dos direitos de ocupação. O caso envolve ainda a localização do terreno em área de proteção ambiental e versões divergentes sobre a legitimidade das operações.
Como começou a disputa e quais atos da SPU são questionados
A propriedade chamada de ilha de Richarlison é um terreno de marinha situado na Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios. Segundo a reportagem, o imóvel tem ligação histórica com a cantora Clara Nunes, na década de 1970, e reúne mansão com 11 suítes, praia privativa, piscina, quadra de tênis, heliponto e cachoeira que deságua no mar.
Do investimento total estimado em cerca de R$ 10 milhões, Richarlison comprovou o pagamento de R$ 4,66 milhões diretamente a antigos posseiros. O valor foi formalizado em acordo registrado em cartório e homologado pela Justiça do Rio de Janeiro; o jogador também afirma ter feito aportes em reformas, infraestrutura e segurança.
O requerimento de regularização apresentado à Secretaria do Patrimônio da União (SPU) em 20 de setembro de 2021 recebeu despacho do então superintendente fluminense em 28 de outubro daquele ano, mas permaneceu sem parecer ou análise técnica por anos. Em paralelo, os inventariantes da M. Locadora de Veículos, empresa cadastrada como ocupante e inapta desde 2018, assinaram em 25 de abril de 2022 uma promessa de venda à WT Administração de Imóveis e Bens S/A.
A petição apresentada ao Supremo questiona que o pedido da vendedora, protocolado em 5 de maio de 2022, teria declarado “uso comum da família” e prioridade para idoso, sem informar que a família de um sócio da Sport 70 ocupava o imóvel. O documento também aponta que a transferência à WT foi aprovada em 12 de julho sem nota técnica, parecer jurídico ou verificação da área, e que a certidão de autorização foi emitida em 1 hora e 40 minutos, apesar de R$ 30.052,21 em laudêmios e multas em aberto.
Ainda conforme a petição, a escritura foi lavrada em 11 de julho de 2022 por R$ 600 mil, abaixo da avaliação municipal de R$ 2,6 milhões e dos R$ 5 milhões que Willer Tomaz teria afirmado ter gasto na operação. Em 18 de julho, a inventariante Maria Alice Menna registrou boletim de ocorrência dizendo ter sido induzida a erro; laudo pericial apontou falsificação de sua assinatura em alteração contratual da empresa vendedora.
Acusações de Richarlison e versões de Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro
Richarlison afirma que recusou propostas de compra enviadas por Flávio Bolsonaro e que, depois disso, envolvidos teriam atuado na Justiça e em órgãos federais para tomar a ilha “na mão grande”. O jogador divulgou mensagens em que cobra providências do senador e apresentou recibos, autos judiciais e registros das transações.
O atleta também questiona a composição societária da WT, registrada em nome de Lídia Maria Figueiredo Mazelli, que declarou ser empregada doméstica. Richarlison acusa o grupo de recorrer a advogados com trânsito em cortes superiores para reverter decisões que obteve na comarca de Angra dos Reis.
Willer Tomaz contesta as acusações e sustenta que a WT adquiriu legalmente os direitos de ocupação, com base em registros que, segundo ele, remontam a 1975. O advogado também desafiou Richarlison a apresentar comprovantes dos valores que afirma ter pago.
Flávio Bolsonaro nega participação na aquisição do imóvel e qualquer interferência junto à SPU. Segundo a manifestação reproduzida na reportagem, o senador afirma ter atuado apenas como testemunha em processos judiciais relacionados ao caso.
O que os deputados pedem ao STF e quais investigações querem abrir
Na petição encaminhada ao ministro Alexandre de Moraes, os deputados Rogério Correia (PT-MG) e Pedro Uczai (PT-SC) pedem a suspensão dos efeitos do ato administrativo da SPU de 12 de julho de 2022 e o cancelamento da transferência dos direitos à WT. A iniciativa solicita ainda que o caso seja anexado ao inquérito sigiloso que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.
Os parlamentares pedem o bloqueio dos direitos de ocupação na matrícula do imóvel e a reversão da posse direta à União, com fundamento no artigo 10 da Lei nº 9.636/1998. Também solicitam o embargo de obras de grande porte que, segundo a petição, estão sendo realizadas sobre o espelho d’água em área de preservação ambiental.
Entre as diligências requeridas estão depoimentos de Richarlison de Andrade e Alencar da Silveira Júnior, além de servidores da SPU. A lista inclui o ex-superintendente Paulo da Silva Medeiros, apontado pelos deputados como indicação política do senador.
A petição também pede apuração de possíveis crimes de corrupção ativa e passiva, tráfico de influência, advocacia administrativa, inserção de dados falsos em sistema de informação, falsidade ideológica, estelionato e lavagem de dinheiro. Os pedidos foram apresentados como medidas a serem analisadas pelo STF, e não como conclusões sobre a ocorrência dos crimes.


